Uso de IA no varejo e como implementar da forma correta

Inteligência artificial aplicada à operação do varejo

Recentemente, José Fugice fez uma provocação sobre o que pretende observar na NRF 2027. Segundo ele, depois de muitos projetos, testes e ideias envolvendo inteligência artificial, chegou a hora de entender o que efetivamente está funcionando.

O mercado já viu muitas iniciativas, mas ainda pouco resultado concreto, e isso é um ponto de atenção para quem trabalha no setor. Porque existe uma diferença enorme entre perguntar "onde podemos usar IA?" e perguntar "qual resultado do negócio precisamos melhorar e onde a IA pode interferir nessa equação?"

É justamente aí que muitos projetos começam errado. Então vamos à forma correta de pensar o uso dessa tecnologia no varejo.

Gestão de expectativa

Desde a popularização da IA generativa, praticamente qualquer processo empresarial virou candidato à automação, e é fato que as possibilidades realmente são enormes.

Segundo a Deloitte, em 2026, varejistas já utilizam IA em áreas que vão de fraude e cibersegurança a preço, previsão de demanda e supply chain.

Só que uma lista grande de aplicações não significa uma lista grande de "eficiências" em todos os processos a que ela se propõe.

Por exemplo, a McKinsey encontrou uma situação interessante em merchandising. Em pesquisa com 114 profissionais realizada no fim de 2025, 71% disseram que ferramentas de IA tiveram impacto limitado ou nenhum impacto em seus negócios até aquele momento. Entre os obstáculos aparecem sistemas fragmentados, dados inadequados e baixa preparação para escalar as soluções.

É aqui que percebemos como a IA conseguir executar determinada tarefa não significa automaticamente que vale a pena automatizá-la. Para começar, o dono da empresa precisa entender qual indicador deveria mudar se a implementação funcionar.

Se ninguém consegue responder isso, provavelmente será difícil provar seu ROI depois, e o investimento é só uma questão de hype. Você precisa saber o que esperar para não pular de cabeça e gastar dinheiro baseado apenas em empolgação tecnológica.

Isso ajuda a mostrar que o gargalo nem sempre é o modelo — às vezes a tecnologia ainda não está nesse estágio ou precisa de uma atenção especial até chegar lá.

IA não conserta dado ruim

Dados desorganizados de estoque e cadastro de produtos no varejo

Imagine uma rede que não possui boa padronização cadastral.

Produtos duplicados. Estoque mal registrado. Fichas técnicas desatualizadas. Dados de clientes espalhados em diferentes sistemas.

Então a empresa, de maneira lógica, implementa IA e espera melhores decisões, afinal ela tem esse déficit. Mas fica a pergunta: com base em quê ela espera melhorar?

Inteligência artificial não elimina a necessidade de construir uma boa infraestrutura de informação — fato que já era importante antes da popularização da IA, ela só tornou essa necessidade ainda maior.

A pesquisa da McKinsey, "LLM to ROI: How to scale gen AI in retail", com executivos do varejo, já apontava dificuldades relacionadas à qualidade dos dados, privacidade, integração tecnológica e custos de implementação como barreiras para escalar projetos de IA.

Por isso, talvez algumas empresas descubram algo desconfortável:

O investimento necessário para usar IA bem começa antes da IA de fato ser implementada.

Esse é um processo natural e fundamental, portanto deve ser uma pré-etapa a ser respeitada.

O melhor caso de IA talvez seja aquele que desaparece

Inteligência artificial incorporada naturalmente aos processos do varejo

Por fim, trago aqui uma mudança de entendimento que vai ser importante a longo prazo.

Hoje ainda falamos muito sobre "usar IA" e, daqui a alguns anos, provavelmente essa expressão fará menos sentido.

Ninguém entra em uma reunião para dizer que a empresa está "usando banco de dados".

A tecnologia simplesmente faz parte da operação naturalmente, e com a IA acredito que acontecerá algo parecido. As aplicações mais maduras provavelmente não serão ferramentas isoladas que o funcionário precisa lembrar de abrir.

Estarão incorporadas aos processos que ele já executa. A própria McKinsey observa em "The State of Grocery North America 2026" esse movimento no grocery, já que a adoção tende a ganhar escala quando a IA é incorporada às experiências e aos fluxos existentes, em vez de adicionada como uma camada independente.

O próprio sistema identifica que determinado produto perdeu margem, que outro está caminhando para ruptura e que uma campanha trouxe faturamento sem contribuição suficiente. A inteligência aos poucos vai deixar de ser uma ferramenta para ser uma etapa do trabalho.

Se a sua empresa já se aproxima desse ponto, você fez o dever de casa e agora pode pensar em como colher os frutos.

Jean Richon
Redator — Adez Comunicação
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