Magalu no delivery?

Aplicativo de delivery de comida representando a entrada do Magalu no setor

O Magalu colocou delivery de comida dentro do seu aplicativo e, naturalmente, boa parte das manchetes tratou o movimento como uma nova ofensiva contra o iFood.

A comparação é inevitável, mas também uma análise errada da estratégia. O Magalu não está começando uma operação de delivery do zero, nem parece precisar derrotar o iFood para que o movimento faça sentido economicamente — e esse é o ponto.

A empresa já controla o aiqfome desde 2020, mas agora está colocando essa estrutura dentro de um aplicativo que possui mais de 50 milhões de usuários ativos por mês. O Magalu Delivery começa em mais de 400 cidades de Minas Gerais, Paraná e São Paulo, enquanto a rede formada pelo aiqfome e outras plataformas regionais tem capacidade para alcançar 1.170 municípios e 55 mil estabelecimentos ativos.

Mas essa movimentação vai gerar algum resultado?

O Magalu tem um problema que comida pode ajudar a resolver

Queda de vendas no e-commerce sendo compensada por frequência de pedidos de comida

O e-commerce do Magalu caiu 11,9% no segundo trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Ao mesmo tempo em que passou a distribuir seu estoque em canais como Amazon e Mercado Livre, a companhia está tentando aumentar a frequência dentro do próprio aplicativo.

O delivery pode funcionar como uma resposta a esse problema, já que quem abre o aplicativo uma vez a cada alguns meses para comprar um eletrodoméstico tem pouco relacionamento recorrente com a plataforma. Mas quem começa a utilizá-lo para pedir almoço, remédio ou supermercado pode abrir o mesmo aplicativo várias vezes por mês.

A vantagem está justamente onde os outros podem olhar menos

Cidade média do interior do Brasil, mercado de expansão do aiqfome

O aiqfome nasceu em Maringá e desenvolveu um modelo bastante particular de expansão, apoiado inclusive em gestores e licenciados locais. Em 2024, a empresa já afirmava processar mais de 30 milhões de pedidos por ano e operar em aproximadamente 600 cidades, com presença praticamente toda concentrada fora das capitais.

Segundo a própria operação, cidades entre aproximadamente 80 mil e 120 mil habitantes estão entre os mercados em que o modelo encontra melhor resposta.

Enquanto parte da nova guerra do delivery está acontecendo nos grandes centros, com empresas disputando consumidor por meio de investimento pesado, cupons, logística e aquisição, o Magalu já possui infraestrutura e relacionamento comercial em centenas de mercados menores.

Na prática, o restaurante conectado à estrutura pode ganhar exposição também dentro do aplicativo do Magalu sem necessariamente construir uma nova operação tecnológica do zero. A companhia resume a lógica como conectar uma vez e vender em duas vitrines.

Se o cardápio, disponibilidade e pedidos puderem ser administrados de maneira integrada, adicionar uma nova fonte de demanda possui custo operacional muito menor do que administrar plataformas completamente independentes.

E existe um contexto concorrencial favorável para esse discurso.

O Cade vem discutindo há anos as barreiras competitivas no delivery. O acordo firmado com o iFood limitou contratos de exclusividade, inclusive proibindo esse tipo de acordo com redes de 30 restaurantes ou mais e estabelecendo limites nacionais e locais para outras operações. Em julho de 2026, o órgão publicou inclusive um novo estudo dedicado aos desafios concorrenciais dos marketplaces de delivery.

Em setembro, a discussão continuava aberta: o Cade determinou o aprofundamento de investigação sobre práticas no setor, com participação da Abrasel como terceira interessada.

Para restaurantes, mais uma plataforma relevante pode significar maior poder de negociação.

Veredito

O iFood construiu escala, marca, frequência e densidade operacional durante anos. Além disso, plataformas de delivery possuem fortes efeitos de rede: quanto maior a oferta de restaurantes, maior a utilidade para consumidores; quanto maior a demanda, maior o incentivo para restaurantes permanecerem.

Entrar nesse ciclo depois que ele já está estabelecido custa caro.

Mas existe outro caminho.

O Magalu pode construir relevância sem precisar ser líder nacional.

Se conseguir transformar o aiqfome na infraestrutura dominante de delivery em um número relevante de cidades médias e usar sua própria audiência para aumentar a frequência nesses mercados, terá criado algo bastante interessante.

Jean Richon
Redator — Adez Comunicação
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